
A história do periférico que mudou a computação
Quem inventou o mouse do computador? A história do periférico que mudou a computação
A história de Douglas Engelbart, o engenheiro que criou o mouse em 1963 e mostrou o futuro da computação em uma demonstração histórica.

Engelbart não inventou apenas um periférico. Ele inventou uma nova forma de conversar com máquinas. E em 9 de dezembro de 1968, numa tarde nublada e ventosa de segunda-feira em San Francisco, ele mostrou ao mundo o que aquilo significava.
A mãe de todas as demonstrações

Mais de 2 mil engenheiros de computação lotaram o Civic Auditorium. Os pôsteres da Fall Joint Computer Conference tinham gerado um burburinho, a reputação de Engelbart fez os organizadores procurarem um espaço maior para a apresentação. De camisa branca de manga curta e gravata fina escura, Engelbart sentou-se à direita do palco, diante de um console Herman Miller especialmente projetado. Atrás dele, uma tela de seis metros projetava o terminal de seu computador.
Durante 90 minutos, a plateia assistiu em silêncio quase religioso. Engelbart editou documentos em tempo real com um colega que estava em Menlo Park, a 50 quilômetros de distância, conversando por vídeo e áudio. Criou hiperlinks. Inseriu elementos visuais. Moveu o cursor pela tela com aquele bloco de madeira com cauda. Cada tecla digitada, cada movimento do mouse em San Francisco era instantaneamente transmitido ao mainframe SDS940 no laboratório e projetado de volta ao auditório, praticamente sem atraso, numa era pré-internet.
Havia céticos. Muitos achavam que era um truque, uma encenação. Engelbart convidou qualquer interessado a visitar o laboratório depois. Quando terminou, agradeceu sua equipe de 17 pessoas e pediu desculpas à esposa e filha pela dedicação obsessiva ao trabalho. A plateia explodiu em ovação de pé que durou minutos. Aquele momento, batizado retrospectivamente como “The Mother of All Demos”, mudou tudo.
O visionário por trás do periférico
Douglas Engelbart nasceu em Portland, Oregon, em 30 de janeiro de 1925. Seu pai era engenheiro elétrico e mantinha uma loja na cidade, enquanto o avô trabalhava em usinas hidrelétricas e levava a família em visitas técnicas às instalações. Mas a origem da missão de Engelbart estava em outro lugar: num artigo visionário que Vannevar Bush publicou na The Atlantic em julho de 1945, chamado “As We May Think”.
Bush descrevia o Memex, um dispositivo hipotético, uma mesa com visor de microfilme ajustável onde uma pessoa armazenaria livros, registros e comunicações, consultáveis com velocidade excepcional. Não era apenas uma máquina de cálculo, mas um amplificador da memória e do pensamento humano. Engelbart absorveu aquela ideia e a transformou em vida: ele não queria que computadores substituíssem humanos, queria amplificar a capacidade intelectual das pessoas para lidar com problemas complexos e urgentes.
A criação do mouse e o NLS
Em 1963, durante uma palestra em uma conferência, Engelbart concebeu o mouse. Ele precisava de algo rápido, preciso, do tamanho de uma mão, as setas do teclado eram lentas demais. Bill English, chefe de engenharia do laboratório de Engelbart, construiu o primeiro protótipo no outono de 1964: um bloco de madeira com duas rodas finas como lâminas de faca, posicionadas perpendicularmente, e um único botão, não por decisão de design, mas porque só cabia um microswitch ali dentro
A patente foi solicitada em 1967 e concedida em 17 de novembro de 1970, registrada como “X-Y Position Indicator for a Display System” (indicador de posição X-Y para sistema de exibição), sob o número 3.541.541. Engelbart nunca recebeu royalties. O SRI detinha a patente, que expirou antes do mouse se tornar popular em computadores pessoais.
O mouse era apenas uma peça de um sistema muito maior chamado oN-Line System (NLS), desenvolvido ao longo de seis anos com financiamento da NASA e da ARPA. O NLS incluía janelas múltiplas, hipertexto, software colaborativo em tempo real e hipermídia — vinculação de textos, imagens, vídeo e áudio em um único documento. Em 1967, o laboratório de Engelbart se tornou o segundo nó da ARPANET, precursora da internet
Do laboratório ao mercado
Engelbart criou o mouse, mas o periférico se popularizou por meio de outras empresas. Em 1971, Bill English deixou o SRI e se juntou ao Xerox PARC, onde desenvolveu o mouse com bola, substituindo as rodas do design original. A Xerox teve a chance de comercializar o primeiro computador pessoal com mouse, mas não soube aproveitar o timing.
Em 1979, a Xerox permitiu que Steve Jobs e executivos da Apple visitassem seus laboratórios duas vezes, em troca do direito de comprar 100 mil ações da Apple. Jobs simplificou o design: enquanto o mouse de Engelbart tinha três botões usados em diferentes combinações para realizar várias tarefas, a Apple decidiu usar apenas um botão ao licenciar a tecnologia do SRI. Engelbart lamentou que a capacidade do mouse tivesse sido “simplificada demais” para torná-lo “fácil de usar”. Quatro anos depois da visita ao PARC, a Apple lançou o mouse com o Lisa, transformando-o de curiosidade de laboratório em componente essencial de computadores pessoais.
Reconhecimento tardio e legado
Durante décadas, Engelbart trabalhou em relativo anonimato. O SRI vendeu o NLS para a Tymshare em 1977, que o renomeou como Augment. Engelbart seguiu sendo o último membro remanescente do laboratório original, migrando entre empresas até fundar o Bootstrap Institute em 1989. Só a partir da década de 1990 ele começou a receber reconhecimento: ganhou o Prêmio Lemelson-MIT em 1997, o Prêmio Turing — a maior honraria da ciência da computação — também em 1997, pela “visão inspiradora do futuro da computação interativa”, e a Medalha Nacional de Tecnologia dos EUA em 2000.
Douglas Engelbart morreu em 2 de julho de 2013, aos 88 anos, em Atherton, Califórnia, de insuficiência renal. Sua missão se cumpriu: ele revolucionou a forma como a inteligência humana interage com máquinas, criando um legado que permanece plantado no cotidiano de bilhões de pessoas.
Fonte: https://www.hardware.com.br/artigos/quem-inventou-mouse-computador/

